Vieram então as apresentações dos grupos de trabalho, com seus mapas e relatórios. Já estávamos no dia 20, último dia da reunião.

Um a um, os oito grupos relataram suas conclusões, tendo a mão seus relatórios, ao final reunidos numa imensa pilha confiada aos consultores coordenadores do Plano. É muita responsabilidade, não? E a idéia é fazer com que este material esteja espelhado no Plano, seja uma base para as análises e propostas. Mapas detalhados, com verbetes inventivos, de tamanhos diversos foram apresentados e igualmente entregues à coordenação.

Tudo é realmente muito ambicioso. Por que digo isso? Porque fazer de um processo algo que valha o nome de "participativo" - palavra surrada no vocabulário de projetos e governamental - é algo que dá trabalho e requer muita, mas muita mesmo, paciência e generosidade para escutar e acolher o que o outro está dizendo. E tem horas que este outro diz cada coisa!

É sério. Por exemplo: parte das soluções encontradas pelos participantes lembravam uma "lista de compras" aos governos. E aí fica a pergunta: participativo não deveria estar aliado a uma perspectiva mais antonomista por parte dos moradores da Reserva, e menos alimentadora de dependências? Mas e aí, se esta solução foi a enxergada? Na verdade, nem tudo está perdido, pois em meio a este senso comum de demandar do Estado - coisa que, frize-se, não é privilégio das populações da floresta! - aparecem coisas como organizar cooperativas locais, comunidades chamando para si responsabilidades que já tiveram mas perderam, como a de fiscalizar e estabelecer leis locais. E assim vai-se construindo a "participação".

Ora, o consultor também é parte, então tem que dialogar com tudo isso, trazer novas idéias, fomentar demandas, mostrar aspectos que não foram tratados. Colocar as partes para conversar, como foi feito na última parte da reunião. O gestor da Reserva no ICMBio foi chamado a fornecer explicações (foto abaixo), o presidente da Asareaj (abaixo, à esquerda em pé) também, assim como secretários municipais. Compromissos foram publicamente assumidos, posições foram tornadas claras. Ilusões talvez tenham sido perdidas, o que não é ruim, ou é?

Pra finalizar, o evento e também esta postagem, um fecho de ouro. Um termo de cooperação técnica foi assinado entre a Asareaj e a Apiwtxa, tendo o ICMBio como testemunha e todos os moradores da Reserva presentes (muitos dos quais fizeram questão de assinar o documento como testemunhas). O evento foi muito aplaudido e saudado como um bom vento, um bom augúrio, uma esperança. Para alguns mais veteranos de toda a história (e aqui me incluo), a Aliança dos Povos da Floresta, muito significativa na região entre 1988 e o início dos anos 90, foi reeditada e atualizada. Simbolicamente, mas não só pois as consequências são também de ordem prática, talvez algo muito forte esteja em curso: um recuo no preconceito étnico, ou a abertura de uma brecha para uma nova visão de desenvolvimento e bem-estar, ou pelo menos o estabelecimento de um inesperado canal de conversas e interesses comuns.

Um
gran finale, como disse, e esperamos que uma aurora promissora para o Alto Juruá.